Publicado em 15 de fevereiro de 2025 | 15 min de leitura
O livro oferece princípios valiosos sobre as bênçãos de Deus e o dinheiro. No entanto, demonstra uma compreensão inadequada da Bíblia e do propósito de Deus para a nossa vida. Na minha análise, o autor comete três erros importantes de interpretação e um erro fundamental de compreensão teológica.
Erro de interpretação 1: As tentações de Jesus
O livro afirma que as tentações de Jesus depois de 40 dias de jejum eram principalmente sobre dinheiro:
- A tentação no deserto de transformar pedra em pão — o teste da provisão.
- A tentação no ponto mais alto do templo de saltar e deixar que os anjos o segurassem — o teste da segurança.
- A tentação de adorar o diabo — o teste do senhorio.
Em Gênesis, quando Eva comeu do fruto proibido, a Escritura diz: "Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento." Aqui vemos três elementos distintos. De modo semelhante, em 1 João 2:16 lemos: "Porque tudo o que há no mundo — a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a soberba da vida — não procede do Pai, mas procede do mundo." Novamente aparecem três elementos.
Jesus também enfrentou três tentações que correspondem a esses padrões. Por isso, não posso aceitar a interpretação das tentações de Jesus principalmente como testes sobre dinheiro, quando elas claramente refletem as três vulnerabilidades humanas fundamentais descritas em Gênesis e em 1 João. Embora o dinheiro possa viabilizar essas tentações, elas existem independentemente da condição financeira da pessoa.
Erro de interpretação 2: As ofertas
O autor cita Malaquias para enfatizar nossa obrigação de dar ofertas. No entanto, isso ignora o contexto bíblico mais amplo. Referências a ofertas aparecem 15 vezes em Êxodo, 36 vezes em Levítico, 35 vezes em Números e 10 vezes em Deuteronômio. Quase todas essas referências descrevem ofertas de purificação e santificação — não simplesmente doações voluntárias ao templo, salvo poucas exceções.
Sim, cristãos precisam ofertar, mas o autor perdeu a oportunidade de tratar corretamente da necessidade da oferta como descrita em Tiago 2:14-16: "Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode essa fé salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso?"
Erro de interpretação 3: Trazer os dízimos à casa de Deus
O livro afirma que você precisa entregar o dízimo na sua igreja. No entanto, Jesus ensinou: "Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe" (Mateus 12:50). A casa de Deus não é apenas um prédio físico, mas todos os que se esforçam para seguir Jesus.
Você não deveria se sentir culpado por entregar seus dízimos ao seu irmão missionário na África quando questiona por que sua igreja gasta tanto com coisas que você considera desnecessárias. O ideal seria haver acordo com seu pastor e sua comunidade, mas lembre-se: a casa de Deus não se limita ao prédio que você visita aos domingos. Seus dízimos devem apoiar a família de Deus em todo o mundo.
O erro fundamental: não compreender o tempo de Deus
O autor seleciona numerosos versículos bíblicos para demonstrar que devemos buscar bênçãos financeiras. Não tenho dúvida de que Deus quer nos abençoar. Como seguidores de Jesus Cristo, somos filhos de Deus, e, como qualquer pai amoroso, Ele deseja nos dar o melhor.
Isso levanta perguntas cruciais: o que constitui o "melhor" de Deus para nós? É prosperidade financeira? Se for, por que tantos crentes fiéis não possuem riqueza material?
Entre os versículos citados pelo autor, selecionei alguns para destacar contradições:
O autor menciona 2 Coríntios 9:8: "Deus pode fazer-vos abundar em toda graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, ampla suficiência, superabundeis em toda boa obra."
No entanto, em Apocalipse 2:9, Jesus diz: "Conheço as tuas obras, a tua tribulação e a tua pobreza (mas tu és rico), e a blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus e não são, sendo, antes, sinagoga de Satanás."
O que, então, são "suficiência" e "abundância", se Jesus reconhece a pobreza de sua igreja e, ao mesmo tempo, a chama de rica?
De Provérbios 8:17-21, o autor cita: "Eu amo os que me amam; os que me procuram me acham. Riquezas e honra estão comigo, bens duráveis e justiça. Melhor é o meu fruto do que o ouro, do que o ouro refinado; e o meu rendimento, melhor do que a prata escolhida. Ando pelo caminho da justiça, no meio das veredas do juízo, para dotar de bens os que me amam e lhes encher os tesouros."
Mas uma atenção crítica a esse versículo revela a expressão "melhor do que o ouro... do que a prata escolhida". Ouro e prata eram os principais símbolos de riqueza financeira nos tempos bíblicos.
O dinheiro não tem valor intrínseco para Deus. O que Deus realmente deseja é abençoar você e dar valor à sua vida. Se o propósito de Deus é dar valor a você, e o dinheiro em si não tem valor para Ele, precisamos perguntar: quais são suas verdadeiras prioridades? O que constitui suas bênçãos genuínas? Será que sua principal preocupação é que você descubra seu valor intrínseco, em vez de acumular riqueza?
Deus, como Pai, certamente quer lhe dar o melhor — qualidade de vida, boa comida, alegria e abundância. Como o autor demonstra com muitos versículos bíblicos, a questão principal não é se Deus quer nos abençoar, mas quando Ele escolhe fazê-lo.
O autor cita Provérbios 11:10-11: "No bem-estar dos justos exulta a cidade, e, perecendo os perversos, há júbilo. Pela bênção dos retos se exalta a cidade, mas pela boca dos perversos é derrubada."
Isso indica que viver em uma sociedade justa conduz ao bem-estar, enquanto viver em uma sociedade injusta gera dificuldades. A questão não é apenas sobre justiça ou maldade individual — não vivemos isolados. Trata-se do ambiente ao nosso redor. Se você duvida disso, observe que os países mais desenvolvidos geralmente mantêm sistemas de justiça estáveis.
Apenas três versículos antes, Provérbios 11:8 afirma: "O justo é libertado da angústia, e o perverso a recebe em seu lugar." Você pode crer com confiança que Deus quer abençoá-lo, mas também precisa aceitar que enfrentaremos dificuldades nesta vida.
O autor cita 2 Coríntios 8:9: "Pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos."
Mas o autor ignora 1 Coríntios 11:1: "Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo."
O autor também cita Salmo 112:1-3: "Aleluia! Bem-aventurado o homem que teme ao Senhor e se compraz nos seus mandamentos. A sua descendência será poderosa na terra; será abençoada a geração dos justos. Na sua casa há prosperidade e riqueza, e a sua justiça permanece para sempre."
O autor enfatiza "prosperidade e riqueza há na sua casa", mas deixa de comentar "a sua justiça permanece para sempre". A palavra "sempre" sugere que as promessas de Deus se estendem além desta vida, até a eternidade.
Prosperidade é uma questão de tempo
Em 2 Reis 5:25-27, lemos: "Ele, porém, entrou e se pôs diante de seu senhor. Eliseu lhe perguntou: De onde vens, Geazi? Respondeu ele: Teu servo não foi a parte alguma. Porém Eliseu disse: Porventura, não foi contigo o meu coração, quando aquele homem voltou do seu carro a encontrar-te? Era ocasião para tomares prata e roupas, olivais e vinhas, ovelhas e bois, servos e servas? Portanto, a lepra de Naamã se pegará a ti e à tua descendência para sempre. Então, saiu de diante dele leproso, branco como a neve."
A pergunta crucial é feita: "Era ocasião para tomares prata e roupas, olivais e vinhas, ovelhas e bois, servos e servas?"
Para Abraão, Davi e Salomão, era tempo de ter abundância nesta vida. Para Abel, muitos profetas e o próprio Jesus, não era. As bênçãos de Deus não são exclusivamente financeiras ou materiais, nem são garantidas dentro da nossa vida terrena.
Considerações finais
Embora o livro contenha percepções valiosas sobre o desejo de Deus de abençoar seus filhos, ele falha em reconhecer a natureza complexa da bênção divina ao longo das Escrituras. A verdadeira prosperidade é muito mais do que ganho financeiro — ela inclui riquezas espirituais, perspectiva eterna e compreensão do tempo perfeito de Deus em nossa vida. Devemos lembrar que muitos servos fiéis de Deus ao longo da história experimentaram pobreza material enquanto possuíam uma abundância espiritual que superava em muito a riqueza do mundo.
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